Mundos paralelos...

...Deitei-me como em qualquer outra noite...nada me agitava a não ser,talvez, aquela tristeza profunda de perder alguém que adorava. Acho que naquele tempo não tinha bem noção de como gostava da minha tia Augusta!( Embora soubesse o suficiente para ignorar até ao fim a sua trombose e ignorar que estava doente. Nunca a fui ver e como tal, recordo-a no seu melhor) Acordei e sentei-me na minha cama, olhei para o relógio despertador, digital com os números vermelhos e vi...eram quatro da manhã! Olhei para a frente e ali estava ela, sentada na minha cama a sorrir o seu sorriso desajeitado ( ela raramente sorria...mas ficava linda quando ria à gargalhada até as lágrimas lhe aparecerem no canto dos olhos.) Falou comigo...não sei o quê...baixinho e com voz doce...não sei o que me disse...mas acho que se foi despedir e penso que dar-me algum conforto...ela sabia que eu ía ficar triste...para não dizer devastada... naquela altura ainda não sabia o que isso era!!!!
Voltei a deitar-me...nada de extraordinário se passou até à hora do almoço em que me disseram que ela tinha falecido nessa madrugada às quatro horas.
De todas as pessoas que já perdi, e foram algumas..., acho que ela é de quem me lembro mais vezes...tirando o meu pai claro, que me acompanha vinte e quatro horas por dia...
Lembro-me muitas vezes da sua dedicação a mim, de como adorava dormir no quarto dela, quantas noites adormeci na sua cama...
Era ela que cuidava de mim...da minha roupa, da minha alimentação, de banhos e caras lavadas, de controlar as saídas e as amizades, de ralhar e de me ensinar a rezar e me levar à missa... de me ensinar a fazer bolos e doces...de me obrigar a bater as claras em castelo à mão porque era contra as máquinas...
Enfim...que feliz fui com ela e que feliz ainda me sinto quando a recordo... depois da sua breve e dedicada visita quase não me sinto triste por a ter perdido tão cedo...
Acho que ía adorar a minha filha...seguramente a ensinaria a rezar e a iria obrigar a lavar sempre as mãos e a cara depois das refeições...que feliz que a minha filha seria se a tivesse conhecido...
Quando penso em todas as pessoas que já perdi e que me marcaram tanto e penso na pequenina , sinto uma grande responsabilidade...tanto que eu aprendi com eles... só espero estar à altura de a ensinar a ela...
publicado por Viver Alentejo às 22:01 | comentar | favorito